Voltar ao blog
Artigo 13 de abril de 2026 4 min de leitura

Chico Science, mangue, memória e trauma

um ensaio sobre o précursor do manguebeat e os desdobramentos da sua obra

psicologia psicanálise manguebeat recife arte tecnologia

Chico Science, mangue, memória e trauma.

Modernizar o passado É uma evolução musical

Monólogo ao Pé do Ouvido - Chico Science e Nação Zumbi

Quem foi Chico Science?

Um cantor que não sabia ler partituras. Era um empirista que experimentava a música no próprio corpo: Tocava com as mãos, batucava, reproduzia melodias com a boca e as registrava com palavras. Frequentador assíduo de distintos espaços culturais de Recife, mergulhou em diferentes mangues para produzir sua música. Algumas de suas influências foram a black music, hip hop, rock e ritmos regionais como o maracatu, coco e a embolada.

Foi gênio porque teve a sensibilidade de escutar uma dor presente no território e nas pessoas. – e sagaz porque conseguiu conciliar expressões artísticas, estéticas e tecnologias. Primeiro a música chegava pelas antenas da rádio, os discos… e depois a cultura hip hop e o brake dance. Na Empresa Municipal de Informática do Recife conheceu Gilmar Bola 8. Conversam sobre seus projetos musicais e Gilmar leva Chico ao Daruê Malungo – um centro de educação popular e de resgate à cultura africana onde rolava música e dança.

– Você quer uma dança, um jogo ou uma luta? – Eu quero uma brincadeira.

Com mestre meia noite Chico Science dança, brinca e recebe a permissão para ter no Daruê malungo mais um lugar de experimentação. Chico canta seus versos em meio às percussões, e consciente do poder que aquilo tinha, convence o resto da sua banda a conhecer e tocar no espaço. Maracatu, rock, embolada, mangue, rede e cidade – assim Brasil e exterior se deslumbram com Chico Science e Nação Zumbi.

Caranguejos com Cérebro

Existe todo um debate filosófico sobre o que é a arte e deus me livre de falar disso. Há quem diga que para uma coisa ser arte, para além de uma forma de expressão, ela deve conter em si alguma crítica e um conjunto de significantes com potencial de operar alguma provocação à sociedade. Acredito e incentivo a expressão humana porque a censura em demasia provoca danos, às vezes, irreparáveis.

Chico foi o catalizador de movimento social gestado por diferentes pessoas, que a despeito das suas diferenças, compartilhavam sofrimentos inerentes à vida no Recife no inicio da década de 90. O Manguebeat aqueceu o circuito cultural de Recife e rompeu seus muros.

Mangue, a cena

Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Manifesto Caranguejos com Cérebro - Fred 04 e Chico Science

Josué de Castro (1908-1971) foi um cientista social, sociólogo, médico e professor que dedicou sua vida e obra à pesquisa, denuncia e o combate da fome. Homens e Caranguejos (1967) é seu romance/autobiografia, publicada 4 anos antes do infarto que pôs fim a sua vida, durante seu exílio na França.

Inconsciente, memória e a sensibilidade de re_tratar o real que salta aos olhos: Quando a tarefa de simbolizar o que há de real é maior que os recursos subjetivos de uma pessoa, a experiencia se torna um trauma. Escutar, trabalhar e devolver gentilmente para seu interlocutor aquilo que a vida apresenta de mais bruto é uma tarefa que artistas e psicólogos se ocupam.

No mangue Chico encontra o legado histórico e simbólico de Josué de Castro. Nada tinha aprendido sobre ele na escola. – Efeito da ditadura? Tomou conhecimento do ilustre pernambucano quando viu seus nomes escritos lado a lado em uma matéria. – Triunfo da arte! Vai ao centro Josué de Castro e folheia o romance homens e caranguejos. Percebe que falavam a língua de homens, de caranguejos e da fome.

Ô Josué, eu nunca vi tamanha desgraça
Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça

Da lama ao caos - Chico Science e Nação Zumbi

Compartilhar

Achou este artigo útil? Compartilhe com alguém.

Matheus Mello
Autor

Matheus Mello

Psicólogo clínico especializado em psicanálise e psicodinâmica do trabalho. Formado pela Universidade Federal Fluminense. Atendimento online e presencial em Rio das Ostras.

Agendar consulta

Continue lendo

Pronto para começar?

Vamos conversar?

Se este artigo ressoou com você, talvez seja o momento de dar o próximo passo. Estou aqui para ajudar.

Agendar uma sessão